terça-feira, 17 de abril de 2012

Flor de Lís: Miniaturas que valem Ouro.


Enquanto grande parte do povo passa fome eu procurei meditar um pouco sobre a simbologia da páscoa e toda a doce fartura comercial desse período. Perdida em meus pensamentos lembrei-me da primeira vem em que comi ouro. Foi na páscoa, quando no Fest Noivas 2009 em Fortaleza-CE, na companhia de Fábia Soares e Albetiza Leite visitamos o estande da Chef Pâtissier (mestre em confeitaria) Luzieh doces finos. Alguns meses depois, participei de um workshop com o chef André Falcão em Recife-PE. Na oportunidade o mesmo exibiu um documentário com o chef Tommy Wong, que se põe a sofisticação como aposta em contramão da recessão. E foi lá que mais uma vez degustei docinhos decorados com folha de ouro.
 Não é realidade minha, nem da minha maior clientela, mas a curiosidade foi maior e resolvi aprender como eram decorador aquelas reluzentes miniaturas comestíveis. Comer ouro é puro delírio ou ostentação de novos ricos? Nada disso. Explica Tommy Wong: na culinária oriental come-se primeiro com os olhos e paga-se a preço de ouro por todo o luxo. Sob o ponto de vista médico a porcentagem de ouro usada na culinária não oferece qualquer risco, uma vez que consumido em pequenas quantidades e trata-se de um metal inerte, que não é absorvido pelo organismo.

Sempre gostei de ler sobre mitologia grega e naquele momento lembrei-me do Rei Midas que teve de Dionísio o privilegio de transformar em ouro tudo que tocasse. O primeiro instante foi de deslumbramento, tudo era transformado em ouro. A desagradável surpresa veio depois. A colher com que ia me alimentar e a própria comida transformou-se em ouro, colocando-a diante a terrível perspectiva de morrer de fome. A lenda grega e os ricos docinhos me levaram a mesma conclusão. Não é a toa que o Rei Midas é representado com um par de orelhas de burro. Nem sei explicar o que senti naquele momento. Eu ali comendo ouro e o mundo inteiro morrendo de fome.

O ouro é símbolo da riqueza, do poder, da glória e da vaidade humana. Em seu nome muito suor foi roubado, muito sangue derramado e muitas famílias dividiram-se. Até mesmo Jesus Cristo foi trocado por moedas de ouro. Se desde sedo aprendêssemos que precisamos de um mínimo de bens materiais para viver com dignidade. É preciso ter claro que não é comendo ouro que seremos mais felizes, nem festa alguma se tornará melhor por ter ouro na composição do seu cardápio. Muito pelo contrario, trata-se de mais uma das perigosas ciladas contra a nossa vaidade adormecida.

Por outro lado fico pensando se meus clientes resolvessem querer folhas de ouro reluzindo suas mesas de doces, como símbolo de ostentação a riqueza. Nada eu poderia fazer se não as suas vontades. Sou paga para realizar sonhos e no fascinante mundo das festas, existem clientes com e sem dinheiro e com gosto para tudo. E eu como sempre estou às ordens.  

Jaqueline de Góis

Nenhum comentário:

Postar um comentário