NOTÍCIA E OPINIÃO
Política e meios de comunicação
Por Fernando Henrique Cardoso em 05/06/2012 na edição 697
Política e meios de comunicação
Por Fernando Henrique Cardoso em 05/06/2012 na edição 697
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 3/6/2012; intertítulos do OI
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Escrevo esta crônica às vésperas de partir para o Japão e a China, de
onde só regressarei depois de publicado o texto, daqui a duas semanas. É
sempre arriscado, nessas condições, falar sobre a agenda política. Será
mesmo? O marasmo é tão grande que possivelmente, ao voltar e reler os
jornais, encontrarei os mesmos temas: a CPI, a corrupção com suas teias
enredadas, os candidatos às prefeituras já conhecidos e suas previsíveis
alianças, o PIB que cresce pouco, os juros que finalmente começam a
cair, a inadimplência dos devedores, as demandas por reformas
tributárias, as soluções caso a caso para diminuir os estoques das
empresas (principalmente automobilísticas), e assim por diante. Dá até
preguiça passar os olhos pelas colunas e notícias da mídia, sem falar
das TVs que repetem tudo isso com sabor de press release, emitido seja pelo governo, seja por empresas.
Ainda recentemente, um sociólogo mexicano, falando na Fundação iFHC e
se referindo a outro aspecto da mesma questão, disse que o resultado das
eleições em seu país independe das campanhas eleitorais. Isso porque,
quando a propaganda partidária tem vez na mídia, a “opinião” já está
enraizada nos eleitores, pois nos anos anteriores se elegeram os heróis e
os vilões cujas virtudes e defeitos foram repetidos todo o tempo, sem
contestação crítica. Será muito diferente entre nós? É dessa maneira que
se exerce nas modernas sociedades de massa o controle ideológico da
opinião, seja pelos governos, seja pelos grupos dominantes na sociedade,
econômicos ou políticos.
Veracidade das informações
A sensação do já visto que alimenta a modorra e leva ao tédio e ao
descaso com a política é, entretanto, enganadora e perigosa. A despeito
de tudo, nem só de manipulação da opinião vive uma sociedade. De
repente, quando menos se espera, não são as “forças do mercado” nem o
“pensamento único” (que em nosso caso, menos do que neoliberal, é de
esquerda desenvolvimentista-autoritária) que comandam a vontade popular.
É o que vemos agora na Grécia e na França, onde a vitória de Hollande, a
despeito do irrealismo de algumas de suas promessas, ecoa até na alma
de Obama e o rígido dogmatismo tedesco, fantasiado de racionalidade de
mercado, se vê cerceado por aspirações de outra natureza. Convém,
portanto, não sobre-estimar a força das verdades preestabelecidas.
Mormente em nossos dias, quando a internet permite que um sem-número de
opiniões divergentes circule sem que os leitores ou ouvintes da grande
mídia se deem conta.
Não digo isso para aceitar o conformismo vigente em muitos meios de
comunicação, até porque, para fazer frente a ele, o desconcerto causado
pela variabilidade de opiniões das mídias sociais, e mesmo pela mistura
entre lixo eletrônico e real opinião, é insuficiente. Digo-o para
alertar: a despeito de parecer que a política, principalmente a
partidária, é mais enganação do que afirmação de interesses e valores
que podem enfrentar a luz do sol, no final das contas o que decide a
nossa vida em sociedade é a política mesmo. Portanto, sensaborona ou
não, repetitiva ou não, controlada pelos que mandam ou não, dependemos
dela. Nos dias que correm, sobretudo nos regimes democráticos, não há
política sem comunicação; logo, é melhor tomar coragem para ler e ouvir
tudo o que se diz, mesmo quando partindo de fontes suspeitas.
A precondição para que haja alternativas ao que aí está é manter a
liberdade de expressão, mesmo que haja distorções. Isso não exclui uma
luta constante contra estas, não para censurá-las, mas para
confrontá-las com outras versões. Afastando por inaceitável qualquer
tentativa de “controle social da mídia”, o acesso de opiniões
divergentes aos meios de comunicação poderia criar um ambiente mais
favorável à veracidade das informações.
Vozes de oposição
Por exemplo: será que é democrático deixar que os governos abusem nas
verbas publicitárias ou que as empresas estatais, sub-repticiamente,
façam coro à mesma publicidade sob pretexto de estarem concorrendo em
mercados que, muitas vezes, são quase monopólicos? E que dizer do tom
invariavelmente otimista das declarações sobre a superação da crise
financeira global oriundas de setores empresariais interessados ou, em
nosso caso, da marcha contínua para o êxito econômico reiterada pelos
governos? O efeito deletério desse tipo de propaganda disfarçada não é
tão sentido na grande mídia, pois nesta há sempre a concorrência de
mercado que a leva a pesar o interesse e mesmo a voz do consumidor e do
cidadão eleitor. Mas nas mídias locais e regionais o pensamento único
impera sem contraponto.
A autenticidade das informações escapa das deformações advindas da
influência das forças estatais (inclusive do setor produtivo estatal) e
das empresas privadas precisamente pela voz crítica dos setores da mídia
independente, por meio de seus repórteres, editorialistas e mesmo dos
proprietários que têm coragem de expor opiniões. Não por acaso, é contra
estes que os donos do poder político e os partidos que os sustentam se
movem: denunciam que é a imprensa que faz o papel da oposição. Até certo
ponto isso é verdade. Mais por deficiência dos partidos de oposição,
cujas vozes se perdem nos corredores dos Parlamentos, do que por desejo
de protagonismo da mídia crítica. Nos países europeus ou nos Estados
Unidos, por mais que haja partidarismo nos meios de comunicação ou que
por lá prevaleça o mesmismo das notícias que refletem o statu quo,
sempre há espaço para o outro lado, para o contraponto. Mal termina de
falar o primeiro-ministro da Inglaterra e já a voz da oposição, como
tal, é transmitida. O mesmo ocorre quando o presidente dos Estados
Unidos faz sua apresentação anual ao Congresso.
Obviamente, não basta haver uma mudança na oferta de espaço pela mídia,
é preciso que haja vozes de oposição com peso suficiente para serem
ouvidas e se fazerem respeitar. Sem esquecer que nas democracias a voz
que pesa politicamente é a de quem busca o voto para se tornar poder.
***
[Fernando Henrique Cardoso é sociólogo e foi presidente da República]

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