CONSELHO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
Um Frankenstein que deveria continuar morto
Por Alberto Dines em 14/08/2012 na edição 707
Um Frankenstein que deveria continuar morto
Por Alberto Dines em 14/08/2012 na edição 707
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Desativado ao longo de seis anos por determinação pessoal do senador
José Sarney, o Conselho de Comunicação Social foi ressuscitado no dia 8
de agosto último numa cirurgia operada pelo próprio Vice-Rei da
República.
O resultado foi um monstro, melhor seria se continuasse morto. Este
Frankenstein institucional, aberração sinérgica e sincrética, é um
deboche, caricatura, imagem em alta definição de um Legislativo-capacho,
desprovido de autoestima e amor-próprio. A escolha do presidente e
vice-presidente do Conselho é emblemática.
Sua Excelência Reverendíssima o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani
João Tempesta, merece todo respeito pelo destacado cargo eclesiástico,
pelo título de especialista em Comunicação que lhe conferiu a
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Mas não se pode
esquecer que S. Exa. Rvma. está tecnicamente
impedido de ocupar a presidência de um órgão auxiliar do Congresso
Nacional que, entre outras tarefas urgentes, deverá examinar a concessão
de canais de radiodifusão a confissões religiosas ou parlamentares
ligados a elas – uma das distorções mais graves da nossa mídia
eletrônica, confronto claro ao Estado de Direito.
Vetos e embargos
A República Federativa do Brasil é secular, conforme explicitado na
Carta Magna: Igreja e Estado são entidades separadas, não podem se
juntar, confundir-se ou se sobrepor. Há um claro e perigoso conflito de
interesses quando uma figura da hierarquia religiosa ocupa um cargo em
que a isenção deveria ser absoluta. Um sacerdote, qualquer que seja a
sua filiação ou crença, não pode ser isento nem independente. Sua fé
sempre se imporá às obrigações legais ou morais exigidas de um servidor
republicano.
E a questão da equidade? As confissões protestantes – os chamados
evangélicos – não foram agredidos, ou pelo menos prejudicados, com a
escolha de um arcebispo católico para presidir um Conselho
obrigatoriamente imparcial, neutro e confiável?
Esta opção retrógrada e teocrática vai além da escolha de Dom Orani e do seu vice (veja abaixo).
Entre os demais 11 conselheiros-titulares há representantes de todas as
redes de TV, exceto da Rede Record, assumidamente evangélica, dona da
Igreja Universal do Reino de Deus e do Partido Republicano Brasileiro
(PRB), partido da base de apoio ao governo federal, premiada com uma
mísera suplência. Além disso, um dos representantes da sociedade civil,
João Monteiro Filho, foi indicado pela catolicíssima Rede Vida de TV,
próxima da ala carismática à qual pertence Gabriel Chalita, candidato a
prefeito de São Paulo pelo PMDB.
Seria injusto recorrer apenas à argumentação histórica lembrando que a
igreja católica e a sua mais operosa facção – o Santo Ofício da
Inquisição – foram os responsáveis pelos 308 anos de censura impostos à
colônia portuguesa do outro lado do Atlântico. Afinal já se passaram 204
anos desde que foi autorizado o funcionamento da primeira tipografia
nestas bandas, e supõe-se que os responsáveis pelo bárbaro atraso já
confessaram seus pecados e se penitenciaram.
A questão não se situa no plano do pretérito, é atual: a entrega do CCS
à igreja católica é a nova etapa de uma parceria construída ao longo
das duas últimas décadas. Graças à aproximação com o Opus Dei e suas
diferentes operadoras (Universidade de Navarra, da Espanha, a
consultoria internacional Innovation e o programa Master em Jornalismo
do Instituto Internacional de Ciências Sociais, de São Paulo), a maior
parte dos grandes e médios grupos jornalísticos nacionais ficou
comprometida em três níveis com a igreja: politicamente, por meio da
domesticação do Conselho de Comunicação Social; empresarialmente,
através dos vínculos do Opus Dei com o patronato jornalístico; e,
profissionalmente, no nível executivo das redações, por intermédio da
confraria dos formados no curso Master sob a batuta de Carlos Alberto di
Franco.
Listas negras, vetos e embargos a nomes, temas e eventos não precisam
ser registrados em atas ou memorandos, são soprados horizontalmente aos
quatro cantos do país.
Paraíso garantido
Qual o papel do vice-presidente do CCS, Fernando César Mesquita, na
criação desse Frankenstein? Ele próprio explicou o funcionamento da nova
fase do Conselho em entrevista que concedeu ao Estado de S.Paulo
(10/8): “[queremos] evitar a acolhida de quaisquer propostas voltadas
ao controle da mídia. Queremos evitar todos os tipos de restrição à
liberdade de imprensa, vamos acabar com esta coisa de marco regulatório
da mídia”. Substituindo-se ao presidente do órgão em seguida à posse, o
vice estabeleceu imediatamente as regras do jogo: quem fala é ele, o
arcebispo dá as bençãos.
Como reagiram os quatro representantes das entidades profissionais
(jornalistas, radialistas, artistas e cineastas) diante do ataque
frontal do representante pessoal de José Sarney às suas tradicionais
posições ideológicas? Engoliram o sapo. Inclusive Celso Augusto
Schröder, presidente da Fenaj. No site da Federação Nacional dos
Jornalistas, com data de 11/8/2012, está dito: “É de nosso interesse que
o CCS seja proativo e se posicione sobre a complexidade de questões que
envolvem a comunicação social”. Schröder garante que “como
representante dos jornalistas se pautará pelas demandas dos movimentos
sociais e dos trabalhadores”.
Não poderia contestar a petulância de Fernando César Mesquita no Estadão:
“O descrédito da atuação [do CCS] se deu em função do engajamento
político de alguns de seus integrantes, dispostos a moldar a mídia a
seus interesses. Caso, por exemplo, da sugestão de um conselheiro de
restringir a entrada de filmes americanos no Brasil como forma de
estimular a importação de filmes chinês e de países do Terceiro Mundo”.
Fernando César Mesquita é um robô, recebe ordens e fala. Esqueceu que o
descrédito do CCS ocorreu depois de encerrado o mandato de seu primeiro
presidente, José Paulo Cavalcanti Filho, quando Sarney forçou a sua
substituição pelo imortal Arnaldo Niskier, trazido de volta às lides jornalísticas com a precípua missão de desativar o órgão.
É possível que o passar dos anos tenha afetado a destreza e a esperteza
da velha raposa maranhense, mas não é descartável a hipótese de que,
depois de tantas humilhações e pecados, Sarney queira garantir um
lugarzinho no Paraíso. E se porventura os evangélicos se rebelarem,
Sarney aproveitará o pretexto para suspender novamente um conselho que
há 24 anos tenta torpedear.
A política brasileira já produziu inúmeros Frankensteins. Este talvez
seja o mais horrendo graças ao silêncio do seu maior beneficiário – a
mídia.
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